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ESG na Contabilidade: o que é, por que virou obrigação e como as empresas devem se preparar

  • Foto do escritor: Liza | Construtábil
    Liza | Construtábil
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura
Este artigo tem base na Resolução CVM nº 193/2023, na Resolução CVM nº 227/2025, na Resolução CFC nº 1.710/2023 e nas normas IFRS S1 e S2, publicadas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) em junho de 2023 e internalizadas pelo Brasil.

Até pouco tempo atrás, ESG era assunto de relatório de responsabilidade social. Algo que grandes empresas publicavam para inglês ver, sem conexão real com a contabilidade ou com os demonstrativos financeiros. Em 2026, esse cenário mudou.

Desde janeiro deste ano, companhias abertas brasileiras são obrigadas a divulgar informações de sustentabilidade com o mesmo rigor usado para apresentar balanços financeiros. Auditados, padronizados e comparáveis. Aquilo que era relatório voluntário virou obrigação legal.

Para empresas de capital fechado, a obrigatoriedade ainda não existe. Mas os efeitos já chegam: clientes grandes exigem dados ESG de fornecedores, bancos usam esses critérios em linhas de crédito e investidores consultam essas informações antes de aportar. Quem não entende o tema fica em desvantagem.


O que é ESG

ESG é a sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, ou seja, Ambiental, Social e Governança. São os três pilares usados para avaliar o impacto e o comportamento de uma empresa além dos números financeiros:

 

Pilar

O que avalia

Exemplos práticos

E — Ambiental

Impacto da empresa no meio ambiente

Emissões de carbono, consumo de água e energia, gestão de resíduos

S — Social

Relação da empresa com pessoas

Condições de trabalho, diversidade, segurança, impacto nas comunidades

G — Governança

Como a empresa é gerida e controlada

Transparência, 'ética nos negócios, conselho de administração, controles internos

 

Por muitos anos, esses dados ficaram fora dos demonstrativos financeiros. A lógica era simples: riscos ambientais ou sociais não aparecem no balanço. O problema é que eles aparecem nas perdas. Uma empresa que polui rios, tem alta rotatividade ou depende de recursos escassos carrega riscos reais que os números tradicionais não mostram.

As normas IFRS S1 e S2 vieram exatamente para corrigir isso.

 

O que São as IFRS S1 e S2

Em junho de 2023, o International Sustainability Standards Board (ISSB), órgão vinculado à Fundação IFRS, publicou duas normas que definem como as empresas devem divulgar informações de sustentabilidade:

  • IFRS S1: trata das exigências gerais de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. Define que as empresas devem reportar riscos e oportunidades de sustentabilidade que possam afetar o seu valor ao longo do tempo.

  • IFRS S2: trata especificamente das divulgações relacionadas às mudanças climáticas. Exige que as empresas identifiquem e quantifiquem os riscos climáticos que podem impactar suas operações e seus resultados.

 

O Brasil foi o primeiro país do mundo a internalizar essas normas na sua regulamentação, por meio da Resolução CVM nº 193, publicada em 20 de outubro de 2023. Em seguida, o Conselho Federal de Contabilidade reforçou a adesão com a Resolução CFC nº 1.710/2023, inserindo as normas nas Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC).


Quando Virou Obrigatório e para Quem

Período

Situação

2024 e 2025

Adesão voluntária. Empresas podiam reportar seguindo as novas normas para ganhar experiência antes da obrigatoriedade.

A partir de jan/2026

Adesão obrigatória para todas as companhias abertas listadas na B3. Os dados coletados em 2026 alimentarão o primeiro relatório completo, publicado em 2027.

Empresas de capital fechado

Sem obrigatoriedade legal. A adesão é voluntária, mas os efeitos indiretos já chegam via cadeias de fornecimento e acesso a crédito.

 

A Resolução CVM nº 227/2025 ajustou os prazos de comunicação de adesão voluntária, estendendo o prazo para empresas que optaram por reportar antecipadamente em 2025. A obrigatoriedade de asseguração razoável por auditor externo também foi confirmada para 2026.

 

O que as Empresas Precisam Divulgar

As normas IFRS S1 e S2 estruturam o reporte em quatro pilares. Cada um exige dados específicos que precisam ser coletados ao longo do ano:

 

Pilar

O que precisa ser reportado

Governança

Como o conselho e a alta gestão supervisionam os riscos e oportunidades de sustentabilidade. Quais processos e responsabilidades existem.

Estratégia

Como os riscos e oportunidades de sustentabilidade afetam o modelo de negócio, o plano estratégico e as projeções financeiras.

Gestão de riscos

Quais processos a empresa usa para identificar, avaliar e responder a riscos e oportunidades de sustentabilidade e clima.

Métricas e metas

Indicadores mensuráveis e auditáveis: emissões de carbono (Scopes 1, 2 e 3), consumo de água, indicadores sociais, metas assumidas publicamente.

 

O ponto que muda tudo é a ''auditabilidade''. Esses dados não podem ser aproximados ou estimados sem base. Precisam ser coletados com rigor, documentados e revisados por auditor externo. É exatamente o mesmo nível de exigência do balanço financeiro.

 

Por que Empresas de Capital Fechado Devem Prestar Atenção

A obrigação legal é das companhias abertas. Mas o efeito já chegou nas empresas de capital fechado de duas formas:

  • Cadeia de fornecimento: empresas grandes e listadas precisam reportar emissões de toda a cadeia (Scope 3), o que inclui fornecedores. Na prática, elas começam a exigir dados de ESG dos seus fornecedores para compor o próprio relatório. Quem não tem esses dados perde contratos.

  • Acesso a crédito e investimento: bancos e fundos de investimento já usam critérios ESG na análise de crédito e valuation. Empresas com governança fraca, alto impacto ambiental ou problemas sociais documentados enfrentam taxas maiores ou bloqueios em certas linhas de financiamento.

  • Certificações e licitações: processos licitórios e certificações setoriais começam a incluir critérios ESG como requisito de habilitação ou pontuação.

 

O Papel da Contabilidade no ESG

ESG sempre foi visto como assunto de sustentabilidade, comunicação ou relatório anual. Com a IFRS S1 e S2, ele entrou definitivamente no escopo contábil.

O contador passou a ter função central nesse processo porque:

  • Os dados ESG precisam ser integrados às demonstrações financeiras: riscos climáticos que afetam o valor dos ativos, passivos ambientais e comprometimentos de sustentabilidade precisam estar refletidos nos números.

  • A coleta de dados exige processos contábeis: medir emissões, consumo, indicadores sociais e governança com precisão auditável é uma atividade contábil tanto quanto levantar o balanço.

  • A asseguração exige o mesmo rigor do audit financeiro: o auditor externo que assina o relatório ESG usa os mesmos estândares do audit das demonstrações contábeis.

 

O que Fazer Agora: um Guia Prático

Para empresas de capital aberto que ainda estão estruturando o processo, 2026 é o ano de coleta dos dados que irão compor o primeiro relatório obrigatório, publicado em 2027. Para empresas de capital fechado, 2026 é o ano de começar antes que a pressão da cadeia de fornecimento chegue sem aviso:

  • Mapear os riscos e impactos de sustentabilidade relevantes: quais fatores ambientais, sociais e de governança podem afetar o negócio ao longo do tempo.

  • Estruturar a coleta de dados: definir quais indicadores serão medidos (emissões, consumo de água, rotatividade, acidentes de trabalho etc.) e como esses dados serão coletados e documentados.

  • Integrar ESG à contabilidade: garantir que os riscos e comprometimentos de sustentabilidade estejam refletidos nas demonstrações financeiras onde aplicável.

  • Alinhar a governança interna: definir quem na empresa é responsável pelo tema, como as decisões de sustentabilidade são tomadas e documentadas.

  • Contar com suporte especializado: a intersecção entre ESG e contabilidade exige profissionais que entendam as duas linguagens.

 


 
 
 
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